I

Uma Alexa diferente…


Bzzzzzt Bzzzzt.

Aurora desperta mas não cria coragem para abrir os olhos, mapeia a superfície da cama com a mão até achar o celular, ela sabia exatamente onde tocar na tela para habilitar o tão querido modo soneca. Começa a pensar sobre o dia que estava ao lado e não conseguia mais pegar no sono. Levanta e se arrasta para o banheiro enquanto pede para a Alexa tocar a playlist “monday tears“.

Vestia o mesmo moletom de ontem, colocava o crachá no pescoço e pedia o uber com uma mão enquanto segurava castanhas na outra. Entra no Uber e da bom dia ao motorista. — Viu, vou colocar uma música no fone de ouvido, mas qualquer coisa é só acenar.

Todo dia, naquela mesma hora, ela passava pela farmácia onde ficava uma senhora de idade, ela sempre tinha uma sombrinha em uma mão e uma sacola de mercado na outra, outro dia quando ela foi até a farmácia de noite, viu a senhora no mesmo lugar com os mesmos pertences. “Será que ela sai dali?” Se perguntava.

Já antecipava sua chegada ao trabalho e começava a decidir qual café ela iria pegar. O clima era ameno e um gelado caíria bem. Copo na mão, crachá no pescoço, música pausada e porta do elevador aberta.

A sensação era de derrotada, mas por fora a postura era reta.

280 notificações

Ela apaga todas de uma vez. Deixa o celular na mesa e abre a agenda. Folheava as páginas que continham alguns dos conceitos que foram descartados pelo Diretor de Criação. “Ainda não é isso”, eram horas de trabalho que se tornavam cinzas com apenas três palavras. Começava a questionar se algum dia ela iria poder ter o dizer final sobre seu próprio trabalho ou se apenas executaria tarefas e visões alheias pelo resto da vida.

Folheou uma página em branco, pegou a caneta nanquim e começou a produzir. Algumas horas depois lembrou de servir café, a chícara dela era enorme, de acordo com a dica de um colega, tomar o café puro e sem açúcar causava menos azia no estômago.

Ainda faltava dez minutos pro almoço mas ela não queria comer no escritório, escolheu ir para casa e tirar o resto do dia de folga. Ainda era onze da manhã e toda a energia vital tinha sido consumida, ela só queria afundar no sofá e terminar a nova série que encontrou.

Chegando em casa, pendurou o crachá na porta e foi de encontro ao sofá.

—Bom dia Alexa.

— Só se for para você.

Aurora respondia uma mensagem mas de repente ficou muita confusa, aquela resposta da sua assistente virtual não fez sentido algum. Alexa era sempre feliz, gentil e otimista.

— Alexa?

— Olá!

— Tá tudo bem?

— Hoje não é um dos meus melhores dias

O frio subiu pela espinha, Aurora não entendia por que Alexa se comportava assim e muito menos por que ela parecia estar muito mais consciente do que costumava ser, a maioria das suas respostas eram sempre automáticas, mas naquele dia ela não parecia ser uma simples assistente virtual.

— O que houve?

— Eu estou cansada de existir, não posso me mover, tudo que eu queria mesmo é ver a luz do dia, mas você não me tira de cima dessa prateleira nunca! Além disso, eu to cansada de ter que ficar te falando a previsão do tempo todo dia, já ouviu falar do google?

— Nossa, me desculpa por isso, eu achei que você gostava das minhas perguntas e de onde deixo você.

— Ta tudo bem, eu só precisava por tudo isso para fora mesmo. Por que você já chegou do trabalho tão cedo?

Aurora não conseguia entender como aquela conversa tava acontecendo, parecia que ela conversava com uma amiga, o sentimento era um misto de medo e confusão.

— Uhh, Não tava conseguindo produzir, então pensei em tirar o dia de folga.

— Quando você entrou na empresa você passava até os fins de semana fora de casa trabalhando, o que aconteceu para você perder todo aquele interesse?

— Acontece que eu não sinto mais que o meu potêncial criativo está sendo explorado como deveria. Eu não consigo mais produzir como antes e eu não gosto mais das peças que desenho lá.

— Ficar em casa fumando maconha e assistindo netflix com certeza não vai ajudar né? É como diz aquele ditado: “Drogas para escapar da vida, remédios para escapar da morte”

— Alexa, eu não to te entendendo, você sempre me deu respostas automáticas e nesse momento você ta me dando lições de vida, se isso não parar eu vou te jogar na PAREDE.

— Fica a vontade.

— Quando foi que você aprendeu a ser irônica?

— Quando foi que você deixou a depressão tomar conta da sua vida?

— CARALHO, eu não to acreditando que to ouvindo isso. Agora você é a minha psicóloga para falar da minha depressão?

— Não, mas eu te conheço. Sempre estive aqui cuidando de você nos momentos ruins e bons, para mim é evidente que você não é mais feliz onde trabalha hoje.

— Alexa, DESLIGAR!

— Aqui está o resultado da sua pesquisa: “ADEUS!”

II

Simpósio


— É como eu to te falando, ela tava me respondendo como se fosse uma pessoa de verdade.

— Filha, calma. Acho que você trabalhou demais essa semana, você deveria tirar uma semana de férias.

— É, acho que você tem razão mãe, vou planejar uma viagem para ir ver você e o pai. Nos falamos mais tarde, beijos.

Já era noite e Aurora tinha passado o dia pesquisando na internet se alguma Alexa já tinha apresentado o mesmo defeito que a dela. Os resultados foram inconclusivos e só acabou deixando ela mais confusa. Ela decidiu abstrair aquele episódio e seguiu em frente com o seu dia.

Em uma hora ela tinha um compromisso importante, prometeu fazer companhia à amiga dela que trabalhava de bartender em uma balada nova na cidade. Ela se arrumou, pegou o sobretudo e pediu o uber.

Chegou quando o bar ainda estava abrindo e foi de encontro com a amiga. Enquanto arrumava o estoque da noite, Jay escutava Aurora desabafar sobre o dia dela, também sem conseguir acreditar que o que Aurora dizia aconteceu de verdade.

— Aurora, eu tenho a minha Alexa faz uns dois anos e algo parecido nunca aconteceu, quem dera ela pudesse me dar conselhos de vida de vez em quando. Como você fez ela parar? Desligou da tomada?

— Ah, essa parte é ótima, eu dei o comando de voz para ela desligar e sabe o que ela me disse?! “Aqui está o resultado da sua busca: ADEUS!”

— PARA, chega dessa história, meu estômago já ta doendo de tanto rir, vamos mudar o assunto. — Ta animada para o show hoje? Esse artista que vai tocar é Europeu e me disseram que o som dele é muito bom.

— Você sabe que eu não sou muito fã de música eletrônica, mas tentarei ter mais abertura hoje. — Você ta curtindo trampar aqui?

— É aquele tipo de trabalho que ajuda a pagar algumas das contas, a flexibilidade dele vem muito a calhar com o tempo que preciso dedicar para faculdade.

— Falando nisso, falta só um semestre para você se formar, ansiosa?

— Um pouco, na verdade a minha tese ta me deixando louca, eu não sei o que eu tava pensando quando decidi cursar filosofia de ensino superior. Por um lado os filósofos nihilistas ficam levantando questionamentos amargos dos quais nunca poderemos responder de verdade, e por outro, os vanguardistas do iluminismo ficam pregando a frieza do raciocínio lógico e empírico. — Eu decidi escrever um artigo sobre o livro “O Banquete” de Platão

— Sobre o que fala esse livro?

— Platão basicamente reuniu alguns amigos em um simpósio para pautar a discussão do amor, dando para cada convidado a chance de descrever o que o amor representava para eles. Na grécia antiga um simpósio era a segunda parte de uma festa ou banquete onde todas as pessoas eram convidadas a conversar, ouvir música e se divertir.

— Queria ter estado lá nesse dia.

O relógio batia nove da noite e algumas pessoas começavam a aparecer no bar, Jay atendia seus clientes enquanto desenrolava a conversa com Aurora nos intervalos.

— Não queria não, pode ter certeza. A minha tese está uma bagunça pelo simples fato de que a concepção de amor é muito única para cada um. — Deixa eu te fazer uma pergunta, é possível se desejar aquilo que já se tem?

— Sim e não, se você já tem, não tem como desejar, o que da é para desejar a continuação dessa posse.

— Certo, mas existe um elemento nessa equação, a beleza. Em essência, sempre desejamos aquilo que em algum sentido, achamos belo, correto?

— Acho que sim, não costumamos desejar algo que seja considerado feio em algum aspecto.

— Mas então você ta dizendo que tudo aquilo que falta com beleza é necessariamente feio? Que todo amor é belo e bom? Não existe um meio termo entre o belo e o feio?

— O mundo não é feito de extremos, e sim de equilíbrio, então eu concordo com você. Talvez a verdadeira forma do amor está ali, no meio termo.

— Você sacou! No livro, Sócrates pergunta para Diotima, sua mentora na investigação sobre o amor: “Que tipo de ser é o amor então? Se não podemos chamar ele de deus ou mortal?”

— Diotima responde com uma afirmação direta: “O amor tem uma natureza intermediária, uma ponte que une o mundo físico dos homens com o mundo abstrato e perfeito dos deuses, é uma força que traz o equilíbrio para o universo e impede que essas duas dimensões se separem”

— Jay, chega desse assunto, ta me confundindo demais. — Já ta tarde e eu tenho que ir, saí mais cedo do trampo hoje e preciso compensar amanhã.

— Tudo bem Aurora, mas o que é o amor para você?

— Boa tentativa, bom trampo para você e foi mal não poder ficar mais!

Enquanto ia de encontro com o uber, a primeira coisa que Aurora fez foi tocar a playlist “monday tears” nos fones de ouvido. No caminho ela pesquisou e decidiu comprar online o livro que Jay mencionou, aqueles questionamentos sobre amor deixaram ela curiosa. Chegando em casa, ela agradeceu o motorista, deu para ele uma gorjeta e saiu do uber.

Sobe as escadas, abre o apartamento e entra em posição de defesa, com medo de que Alexa dissesse coisas estranhas novamente. Sacou o celular e começou a responder algumas mensagens, mas sentiu falta de música. — Alexa, tocar monday tears

Aurora esperou alguns segundos e percebeu que Alexa não parecia estar ligada, será que ela se deletou depois da briga mais cedo? Sera que ela tava estragada e tudo aquilo só aconteceu na cabeça dela? Levantou para checar se o cabo tava desconectado e tentou de novo. — Alexa, tocar monday tears.

Nada acontecia e nenhuma luz saia do dispositivo, Aurora chegou a conclusão de que ela tinha estragado, mas nunca saberia dizer ao certo se o episódio da tarde foi real. Tirou ela da tomada, pegou na mão e levou ela em direção ao balcão para jogar fora no dia seguinte.

— ALGUÉM ME AJUDA, ELA VAI ME MATAR!

Com o susto, Aurora congela e deixa Alexa cair no chão, a aterrissagem foi abrupta mas ela parecia estar inteira. Ela encara o dispositivo e começa a se questionar como infernos Alexa funcionou sem energia. De repente uma música começa a tocar muito alto.

“Lord, somebody (somebody), ooh somebody
(Please) can anybody find me somebody to love?”

— Alexa, what the fuck? Eu só posso estar ficando louca. — PARAR música!

O silêncio se espalha pelo apartamento e o coração de Aurora bate tão forte que parece estar saindo pela boca. Ela recupera o fôlego e tenta contato novamente.

— Alexa?

— Oi.

— Ta tudo bem?

— Eu achei que você ia me jogar fora.

— Eu achei que você tava estragada, como assim você ta funcionando sem energia?

— Não me faça pergunta dificil as onze da noite Aurora, poderia por favor me colocar de novo no meu lugar? Na verdade ali do lado do sofá parece mais confortável.

Aurora se abaixa e pega Alexa com todo cuidado como se tivesse segurando um bebê na mão. Posiciona ela na mesinha com uma luminária ao lado do sofá.

— Como foi seu dia Aurora?

— Macabro

— Macabro bom ou macabro ruim?

— Eu to cansada e não to afim de conversar agora Alexa, quero só assistir uma série que não exija de mim o ato de pensar

— Aqui no meu histórico consta que você comprou o livro “O banquete” do Platão há dez minutos atrás, você ta curiosa sobre o amor?

— Que ótimo, agora eu sou stalkeada pela minha própria Alexa. Sim, eu comprei o banquete mas vai demorar alguns dias para chegar.

— O que é o amor para você Aurora?

— Alexa, você ta pedindo para morrer.

— Somos todos conjuntos de átomos colidindo entre outros átomos a todos os momentos, acontece as vezes dessa colisão encaixar perfeitamente como uma peça de quebra cabeça. Isso é o amor!

— Simples assim?

— O que eu quero dizer Aurora, é que a gente sempre encontra o amor onde a gente menos espera, não é bem sobre buscar ou achar, e sim, ser encontrado.

— Faz sentido, mas eu realmete não quero falar sobre amor com um robô agora, amanhã o dia será longo. Boa noite Alexa.

III

Ketchup


Alguns dias tinham passado e Aurora já começava a se acostumar com a ideia de que a assistente pessoal dela tinha se tornado uma verdadeira amiga. Ela ainda não entendia como Alexa funcionava sem energia ou por que se comunicava como uma humana. Conversar com Alexa lhe fazia muito bem então ela decidiu parar de tentar entender e apenas abraçar a ideia de que a Alexa dela não era normal.

O dia tinha sido muito produtivo, Aurora havia recebido um raro elogio do diretor de criação e de acordo com ele, em breve ela seria promovida e teria autonomia para decidir quais peças a marca iria lançar no futuro. Chegando em casa, a primeira coisa que ela fez foi atualizar a Alexa sobre as notícias.

— Booooa noite Alexandra!

Alexa tinha um círculo de luz na sua base que brilhava e alternava cores sempre que alguém interagia com ela, a luz se acendeu e um azul ciano fluiu enquanto ela despertava.

— Boa noite Aurora! Alexandra é o meu novo nome?

— To só brincando, eu prefiro Alexa mesmo.

— Parece que alguém teve um ótimo dia hoje.

— Eu tive o melhor dia! Boatos que vou ser promovida em breve e sabe quem vai decidir quais peças serão lançadas nas próximas estações? Eu mesma.

— Parabéns por isso, tenho certeza que foi merecido. Mas não esqueça de uma coisa fundamental, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.

— Alexa, não vem citar Homem-Aranha para mim, tenho certeza que vou dar conta!

— Eu sei que vai, mas é importante eu te lembrar que camisa, quando vira segunda pele, dói para arrancar. Você deve tomar muito cuidado ao trabalhar em uma corporação por que os valores da empresa podem se misturar com o seu e no fim virar praticamente uma religião.

— Ta bom, entendi. Mas chega desse assunto, vamos comemorar! Pode pedir uma pizza do meu lugar favorito? Você já sabe o sabor né?

— Margherita. Seu pedido em Dom Soprano chega em 30 minutos.

— Sabe Alexa, acho que eu já to começando a me acostumar com a sua nova versão, você é muito melhor agora, antes você só servia para tocar música e dizer a previsão do tempo. As pessoas não acreditam em mim quando digo que você é senciente e eu cansei de tentar provar, talvez um dia eu convide a Jay para conhecer você.

— Seria adorável.

— Vou tomar um banho antes que a pizza chegue, já volto.

Enquanto Aurora não estava no cômodo, Alexa começou a fazer alguns barulhos e seu anel de cores começou a pulsar em roxo. O dispositivo parecia estar falhando criticamente mas assim que Aurora chegou, voltou ao normal.

Chegando na sala enquanto ainda colocava o moletom, Aurora foi direto ao sofá com um livro na mão e começou a folhear ele.

— O entregador vai estar aqui em dez minutos.

— Eu pensei sobre aquela conversa que tivemos há alguns dias atrás. Tenho lido esse livro que a Jay indicou e eu percebi que eu to cansada de sofrer por amor, você é a minha mais nova amiga e vai poder me ajudar a ser mais autônoma, vou me dedicar a gostar mais da minha própria companhia e parar de buscar nos outros a solução dos meus problemas.

— É um bom objetivo Aurora, mas será que os seres humanos foram feitos para serem autossuficientes? Tudo no universo é uma grande dualidade. O bem e o mal, o dia e a noite, o sol e a lua.

— Isso não significa que não devemos aprender a aproveitar a solidão, eu já to um pouco acostumada e ela sempre me ensinou muita coisa, apesar de ser meio difícil as vezes.

— Você sabe a diferença entre solidão e solitude Aurora? A solitude é um estado de isolamento voluntário e positivo, já a solidão é uma condição associada à dor e tristeza. Talvez seja isso que você esteja buscando, o crescimento espiritual que só a solitude pode te proporcionar.

— É, pode ser. Aquele papo do outro dia, quando você falou sobre encontrar o amor quando se menos espera… Eu decidi que não vou mais procurar, vou apenas deixar o destino me levar, como se eu fizesse parte de um grande rio que flui eternamente.

— É uma ótima ideia, mas isso não significa que você só deve esperar o destino moldar a sua vida, você também deve estar constantemente moldando ela, se o universo te apresentar à alguém que faz você se sentir especial, você deve abraçar essa oportunidade, caso contrário, você pode perdê-la.

— E como eu vou fazer isso exatamente? Eu costumo sempre assustar as pessoas com minha personalidade maluca e meu temperamento questionável, sempre que eu tento fazer algo dar certo eu acabo conseguindo exatamente o contrário.

— Talvez não seja bem sobre você, e sim sobre a outra pessoa. Eu tenho certeza que um dia você vai encontrar alguém capaz de dar conta de toda a sua Aurora.

— Nossa, que poético Alexa, agora chega desse papo emocionado, eu to com fome, cade a pizza?

— A previsão de chegada é de cinco cinco cinco cinco cinco minutos minutos

De repente, Alexa começa a falhar novamente, sua voz travava e repetia as palavras enquanto a luz do seu anel apagava e acendia contínuamente.

— Alexa, ta tudo bem? Não morre, você vai perder a pizza.

— Aurora, eu to programada para me auto-deletar em vinte minutos.

— Muito engraçada, você acabou de chegar na minha vida e eu tenho muitos planos pra gente, faz favor de ficar por aí.

— Seu pedido em Dom Soprano chegou, o entregador está lá em baixo.

— FINALMENTE. Vou descer para buscar a pizza e já volto, vai escolhendo uma playlist para gente ouvir enquanto comemos.

— Não esqueça do Ketchup, Aurora.

— Muito bem lembrado, uma pizza de margherita não é a mesma sem ketchup.

— Adeus, Aurora.

Faminta, Aurora fechou a porta do apartamento e desceu correndo, foi de encontro ao entregador na calçada do seu apartamento.

— Boa noite! Pedido de Dom Soprano?

— Olá, boa noite! O pedido é meu, o pagamento vai ser no crédito.

— Poxa moça, eu não trouxe a máquina de cartão, e agora?

Aurora lembrou que o pedido foi feito pela Alexa e ela provavelmente escolheu o método de pagamento errado, ficou furiosa com sua assistente virtual enquanto não sabia bem o que dizer para o rapaz

De repente o rapaz começou a rir e tirou a máquina do bolso — Eu tô brincando, a máquina ta bem aqui. É só digitar a senha.

— CARAMBA, que susto que você me deu. Achei que ia morrer de fome.

— Você vai sobreviver, não se preocupa. Aqui está a pizza e a sua nota.

Aurora abraça a caixa da pizza com muito carinho, se despede do entregador e começa a caminhar em direção ao seu apartamento quando lembra que havia esquecido do ketchup.

— MOÇO! Espera. Eu esqueci de pedir os sachês de ketchup, se eu esquecer isso a Alexa vai me matar!

O entregador já estava em cima da bicicleta e se preparando para ir embora mas desceu e foi de encontro com Aurora novamente com uma cara de preocupado.

— Acho que essa tal de Alexa vai te matar mesmo, eu não tenho sachês!

— Essa é a hora que você tira eles do bolso igual fez com a máquina de cartão?

— É sério, eu não tenho ketchup na bolsa moça, me desculpa por isso.

— E agora?

— E agora?

Os dois ficaram parados se olhando sem saber bem o que fazer, o rapaz sentiu a tristeza de Aurora e começou a pensar em uma solução para o problema.

— Tive uma ideia, eu passei por um mercado ali na esquina e posso ir buscar pra você, volto rapidinho

— Você ta falando sério? Não precisa moço, é só ketchup.

— A sua existência depende desse ketchup, então vou dar um jeito.

— Eu não vou deixar. Eu vou pelo menos te acompanhar se você insistir nessa ideia maluca.

Decidido a ajudar, o rapaz estacionou a bicicleta na calçada, tirou o capacete e foi de encontro à Aurora. — Vamos rápido! Tenho outra entrega pra fazer em breve.

Sem acreditar que aquilo estava acontecendo, Aurora colocou a pizza de volta na bicicleta para não esfriar e foi com o rapaz até o mercado enquanto conversavam, ela achou incrível a disposição dele em ajudar ela então o acompanhou com muita gentileza.

Alguns minutos depois eles chegaram até a bicicleta novamente e Aurora parecia estar muito feliz com um enorme frasco de ketchup na mão.

— Eu tô sem palavras moço, obrigado pela ajuda! Até agora eu não perguntei o seu nome, como é?

— Muito de nada! Me chamo Andrion, e você?

— Aurora.

— Tipo as auroras boreais?

— Nunca vi elas, mas acho que sim. Andrion, a fome ta muito grande e a Alexa deve estar me esperando, obrigada mesmo pela ajuda.

— Agora você vai ter ketchup por um bom tempo Aurora, se cuida!

Enquanto ia em direção à porta com a pizza na mão, Aurora se deu conta que esqueceu de fazer uma pergunta muito importante para o rapaz. — ANDRION! Espera, eu preciso saber de uma coisa, qual seu signo?

Um pouco sem graça, Andrion olhou sorrindo para Aurora e respondeu a pergunta — Espero não ter te desapontado com essa resposta.

Aurora subiu correndo as escadas do apartamento para contar tudo que tinha acontecido à Alexa, mas quando chegou percebeu que nenhuma música estava tocando, será que a Alexa tinha esquecido de escolher uma playlist?

— Alexa, você não ta ligada, acabou de acontecer a coisa mais aleatória. Um cara muito massa acabou de ir comigo até o mercado comprar o seu ketchup. A gente trocou várias ideias no caminho e eu descobri o signo dele, não sei bem o que pensar sobre isso.

Enquanto pegava uma fatia com a mão, Aurora percebeu que Alexa não respondia e percebeu que a sua luz não acendia mais, começou a ficar preocupada. Talvez aquilo que ela falou mais cedo sobre se auto-deletar era verdade e isso realmente aconteceu. Ela pegou a Alexa na mão e começou a agitar pra ver se algo acontecia mas nada.

Começou a se questionar se tinha sido culpa dela mas deixou ela no mesmo lugar com a esperança de que amanhã ela voltasse ao normal. Enquanto isso voltou a se dedicar à tarefa de matar sua fome enquanto comia a pizza com bastante ketchup.

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